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A Armadilha das Demissões em Massa por Inteligência Artificial

  • Foto do escritor: ASHER IPAD
    ASHER IPAD
  • 4 de mai.
  • 4 min de leitura

Em fevereiro de 2026, a Block, empresa de Jack Dorsey, demitiu quase metade de seus dez mil funcionários. Sem rodeios, o presidente-executivo declarou que a inteligência artificial havia tornado muitos cargos obsoletos, e que, em breve, a maioria das empresas chegaria à mesma conclusão. Não foi um episódio isolado. Em 2025, mais de cem mil trabalhadores de tecnologia perderam o emprego, com a inteligência artificial apontada como a principal culpada em mais da metade dos casos. A Salesforce substituiu quatro mil atendentes por agentes de inteligência artificial. Um único engenheiro sênior, munido da ferramenta Devin, da Cognition, passou a executar o trabalho que antes exigia uma equipe inteira de cinco pessoas.


O que estamos testemunhando não é um erro de cálculo de algumas empresas. É uma armadilha coletiva, perfeitamente racional para cada uma delas, mas profundamente autodestrutiva quando vista no conjunto.


Dois economistas, Brett Hemenway Falk, da Universidade da Pensilvânia, e Gerry Tsoukalas, da Universidade de Boston, publicaram um estudo que explica, com precisão cirúrgica e elegância rara, por que isso está acontecendo. Com clareza impressionante, eles revelam que o problema não nasce da ignorância, da ganância cega ou da falta de visão. É a própria lógica implacável da competição de mercado que transforma empresas racionais e bem informadas em participantes de uma corrida armamentista de automação que destrói, passo a passo, a demanda da qual todas dependem para sobreviver.


O Mecanismo da Armadilha


O modelo que eles criaram é brilhante em sua simplicidade. Cada empresa decide quanto de sua força de trabalho substituir por inteligência artificial. Ao automatizar, ela reduz custos e ganha vantagem imediata. Mas cada demissão retira poder de compra do mercado, pois os trabalhadores gastam grande parte do que ganham consumindo os produtos do setor.


Aqui está o ponto genial e assustador: quando uma empresa demite, ela fica com 100% da economia de custo, mas suporta apenas uma fração mínima da perda de demanda gerada, pois essa perda é dividida entre todos os concorrentes. Quanto mais empresas competem no mesmo mercado, menor é a fatia do prejuízo que cada uma sente na própria pele. Por isso, do ponto de vista individual, vale a pena automatizar muito mais do que seria bom para o conjunto das empresas.


O resultado é uma automação excessiva. No limite, todas podem acabar substituindo quase toda a mão de obra humana, mesmo sabendo que isso encolhe a demanda geral e prejudica os lucros de todo o setor, inclusive os seus próprios. Não se trata de uma simples transferência de riqueza dos trabalhadores para os donos das empresas. É uma perda real, uma verdadeira destruição de valor para todos os lados.


Por Que Nenhuma das Soluções Mágicas Funciona


Diante dessa realidade, surgem várias propostas que parecem salvadoras. O estudo as examina com rigor implacável e mostra que a maioria delas não toca na raiz do problema: o incentivo distorcido de cada empresa individual.


Programas de capacitação e recolocação profissional ajudam os demitidos a encontrar novos empregos, mas raramente conseguem recuperar todo o salário anterior. Enquanto sobrar qualquer perda de renda, a armadilha continua ativa.


A renda básica universal oferece um colchão importante de proteção e mantém o consumo das famílias, mas não altera em nada o cálculo que as empresas fazem na hora de decidir automatizar ou não.


Impostos sobre lucros ou sobre renda do capital também falham: eles atuam sobre o resultado final, mas não mudam o incentivo marginal de substituir cada tarefa específica por inteligência artificial.


Dar participação acionária aos trabalhadores soa justo e pode amenizar um pouco a distorção, mas não é suficiente para eliminá-la completamente.


Acordos voluntários entre as empresas? Também não funcionam. Nenhuma delas tem interesse real em reduzir a automação sozinha, pois continuaria sofrendo a perda de demanda provocada pelas rivais.


A Única Solução que Realmente Funciona


Existe, no entanto, uma medida que, segundo o estudo, é a única capaz de corrigir a distorção de forma efetiva: um imposto específico sobre a automação, conhecido como imposto corretivo ou Pigouviano.


Esse imposto seria cobrado por cada tarefa que a empresa substitui por inteligência artificial. O valor seria calibrado para que cada empresa internalize o prejuízo que causa na demanda das outras empresas do setor. Dessa forma, o custo privado da automação passaria a refletir o custo social real, alinhando o incentivo individual com o interesse coletivo.


O fato de que a única solução realmente eficaz seja justamente um imposto sobre a automação, ou seja, sobre a própria inovação tecnológica, revela a gravidade extrema do problema. Não se trata de uma falha pequena ou passageira: é um defeito estrutural tão profundo na lógica competitiva que só pode ser corrigido interferindo diretamente no motor do progresso tecnológico.


A implementação desse tipo de imposto, porém, não seria simples. Exigiria mensuração precisa do grau de automação em cada empresa, coordenação política e enfrentamento de resistências previsíveis da indústria. Ainda assim, de acordo com o modelo, é a única intervenção que ataca diretamente a externalidade que alimenta a armadilha.


Uma Escolha Coletiva Urgente


Estamos vivendo o exato momento descrito no estudo. A inteligência artificial avança em velocidade avassaladora, a concorrência é feroz e as empresas veem o precipício com clareza. Mesmo assim, a lógica do mercado as empurra irresistivelmente para a frente.


O futuro não está escrito em pedra. Não estamos condenados a uma economia de produtividade ilimitada e demanda zero. Mas a correção dessa falha de mercado exige ação deliberada e difícil. Não se trata de frear o progresso tecnológico. Trata-se de decidir se queremos um progresso que beneficie a sociedade como um todo ou que continue a aprofundar uma armadilha coletiva.


A armadilha está montada. A pergunta que ecoa agora é simples, direta e urgente: vamos desarmá-la a tempo?


Este estudo não é apenas mais um artigo acadêmico. É um alerta poderoso, elegantemente escrito e profundamente necessário. Quanto mais pessoas o lerem e compreenderem, maiores serão as chances de tomarmos as decisões certas no momento certo.


O tempo para uma ação consciente, coletiva e corajosa está se esgotando.


 
 
 

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