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Pequim, Maio de 2026: O Ocidente Contra-Ataca (Trump vs Xi)

Foto do escritor: ASHER IPAD
ASHER IPAD
18 de mai.
5 min de leitura

Existe uma forma peculiar de loucura que não grita nem delira. Ela sussurra. Veste-se de compaixão, senta nas cadeiras mais prestigiadas das universidades, assina editoriais respeitáveis e discursa com a voz trêmula de quem carrega o peso moral do mundo. É a loucura da autodestruição civilizada, e está a devorar-nos por dentro com a elegância silenciosa de um cancro que ainda não dói.


Fomos convencidos, aos poucos e com paciência cirúrgica, de que a nossa prosperidade é prova de culpa. Que a nossa força é evidência de crime. Que cada hospital construído, cada vacina descoberta, cada constituição que proclama a dignidade humana é, na verdade, a fachada cínica de um projeto de dominação.


O réu sentou-se no banco, confessou, e a sala aplaudiu.



Mas há uma verdade que os arquitetos desta narrativa temem acima de tudo: a comparação com a realidade.


Olhe para a história da humanidade com olhos limpos, despidos de sentimentalismo e de agenda política. O que encontra não é um Éden de povos pacíficos vivendo em harmonia até que as caravelas chegassem. O que encontra é sangue. Universal, implacável, democrático no seu horror.


O comércio árabe de escravos atravessou o Saara durante séculos com uma brutalidade que não gerou um único movimento abolicionista. Impérios mongóis, otomanos, chineses e africanos ergueram as suas grandezas sobre os ossos dos vencidos. Tribos massacravam tribos muito antes de qualquer europeu pisar noutro continente.


A violência e a conquista não são patologias europeias. São a condição humana.


O que nos diferencia não é termos sido mais violentos. É termos sido os únicos a decidir parar.


No auge do poder absoluto, quando poderíamos ter continuado impunes, algo aconteceu que nunca tinha ocorrido na história registada de civilização alguma: viramo-nos para nós mesmos e dissemos que não. Declarámos, pela primeira vez, que todos os homens nascem livres e iguais em dignidade. E depois derramámos o nosso próprio sangue para honrar essa declaração.


Nenhuma outra civilização na história fez isso. Nenhuma.



Falam-nos de multipolaridade como se fosse a redenção. Um mundo sem hegemonia ocidental, apresentado com a luz dourada de uma aurora de igualdade entre os povos.


É uma ideia bonita. É também uma armadilha mortal.


Quer ver o que é a multipolaridade na prática? Retire o Estado soberano de um território e entregue-o simultaneamente a vários cartéis armados. Observe o que acontece nas primeiras 48 horas. Quando a força hegemónica recua, não surge o concerto pacífico das nações. Surge a guerra de todos contra todos, porque a natureza não tolera vácuo de poder.


E a pergunta que deveria gelar o sangue de qualquer pessoa pensante é esta: quem preencherá esse vácuo?


A China, que passou décadas construindo silenciosamente um império económico planetário, comprando portos, capturando cadeias de abastecimento, amarrando nações em dependências que parecem acordos de desenvolvimento mas funcionam como coleiras? A Rússia, cujo czarismo atualizado move fronteiras à força de mísseis? O expansionismo político islamista, que substitui ordens liberais por teocracia onde quer que encontre espaço?


A escolha real não é entre o Ocidente e a Utopia. É entre o Ocidente e a tirania sem verniz.


É precisamente aqui que precisamos olhar para o que está acontecendo agora, esta semana, em tempo real, diante dos nossos olhos.


Um avião aterra em Pequim. E o mundo, distraído com manchetes de superfície, perde completamente o significado do momento.


Aqueles que entendem geopolítica como ela realmente funciona reconhecem de imediato: isto não é diplomacia. É a demonstração mais calculada de força que o Ocidente protagonizou em décadas.


Porque enquanto metade do Ocidente esteve ocupada a pedir desculpas pela própria existência, a outra metade, a que ainda se lembra para que serve o poder, esteve a trabalhar em silêncio. A reconstruir, peça por peça, a alavancagem que décadas de política externa passiva foram desperdiçando. Restrições tecnológicas que estrangulam as ambições de Pequim em inteligência artificial. Diversificação de terras raras que quebram monopólios estratégicos. Redes de alianças no Indo-Pacífico construídas com paciência de longo prazo. Dominância energética consolidada como instrumento de pressão geopolítica.


O resultado é que quando o representante máximo do poder americano aterra na capital chinesa, não chega como parceiro ansioso por estabilidade. Chega como alguém que alterou as condições do terreno antes de se sentar à mesa.


E quando as instabilidades no Médio Oriente expuseram a vulnerabilidade energética de Pequim, quando ficou claro que a segunda maior economia do planeta continuava refém de rotas que não controla, o quadro ficou completo. A China não se sentou à mesa por generosidade diplomática. Sentou-se porque a aritmética do poder não deixou outra opção.



Compreenda o que está verdadeiramente em jogo.


O que se decide agora, nas salas fechadas de Pequim, não é quem vende mais soja ou quem aplica mais tarifas. É quem controlará o comércio, a energia, a tecnologia, os alimentos e a inteligência artificial pelos próximos trinta anos.


É a arquitetura do mundo em que os seus filhos nascerão como adultos.


E é aqui que reside o perigo mais sombrio de todos, aquele que raramente é dito com esta clareza: *os nossos adversários contam com a nossa autodestruição interna.*


Não é teoria da conspiração. É estratégia elementar. Enquanto as nossas universidades ensinam que o talento é uma forma de privilégio a ser corrigido, enquanto as nossas corporações promovem pela lealdade ideológica em vez da competência, enquanto dizemos a uma geração inteira que a biologia é o destino e o esforço é irrelevante, a China forma engenheiros. Treina matemáticos. Constrói infraestrutura de inteligência artificial com a frieza metódica de quem sabe que o século XXI será ganho pelo conhecimento, não pela gestão da culpa histórica.


Uma civilização que substitui a meritocracia pelo ressentimento institucionalizado está a condenar os seus aviões a caírem e o seu futuro científico à estagnação, e está a fazê-lo precisamente quando a batalha pela liderança tecnológica global nunca foi tão decisiva. Os nossos adversários não precisam de nos derrotar. Precisam apenas de esperar que terminemos de nos derrotar a nós próprios.


É por isso que o que acontece em Pequim esta semana importa tanto. Não apenas como momento diplomático, mas como sinal. O sinal de que nem todos no Ocidente esqueceram como se joga o jogo real. De que ainda existe, algures no centro nervoso desta civilização, a memória instintiva de que o poder não se pede, não se envergonha, não se desculpa.


Defende-se.



A realidade, despida de romantismo, é esta:


Com todas as suas fraturas e contradições, o Ocidente moderno é o *milagre da história humana.* O arranjo civilizatório mais livre, mais plural e mais rico que alguma vez existiu. O único que concedeu ao indivíduo o direito de ser o arquiteto do seu próprio destino.


Não existe paraíso fora das nossas fronteiras esperando para nos receber. Existe o vazio, e no vazio os que chegarem primeiro ditarão as regras.


Se não recuperarmos a confiança na nossa própria grandeza, se não tivermos a coragem de defender o que construímos contra os que nos atacam de fora e contra os que nos corroem por dentro, entregaremos tudo.


O dia em que esta chama se apagar, por pura exaustão e vergonha de si mesma, o que a substituirá não será o paraíso imaginado pelos académicos desconstrucionistas.


Será um pesadelo de força bruta e servidão do qual não haverá fronteiras para cruzar, nem barcos para apanhar.

Porque já teremos destruído todos os lugares para onde fugir.


 
 
 

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